É
com o diálogo Górgias que sucede o afastamento de Platão para com os ensinamentos
de Sócrates, o que o levou à elaboração de uma filosofia própria, cujo
desmembramento para com o pensamento de Sócrates ficará evidente em obras como
A República.
O
tema que ganha enfoque neste diálogo é a Retórica, como a mesma deve ser utilizada
e se sua utilização exerce alguma função justa.
O
debate a cerca da retórica ocorre na residência de Cálicles e fazem parte as
personagens Sócrates, Górgias, Querefonte, Polo e o próprio Cálicles.
Iniciando
um debate com Górgias, Sócrates induz o seu oponente em contradição, levando-o
a dizer que a Retórica, a arte dos discursos políticos que tem como objeto a
justiça, pode ser usada de forma errada e, ao mesmo tempo, que todos aqueles
que a aprendem são incapazes de cometer qualquer ato injusto. Em tentativa de
não desmerecer a retórica – e a si próprio – Górgias alega que os mestres da
retórica ensinam seus discípulos a usá-la de forma justa, porém, por vezes,
acontece de os mesmos utilizarem ela de forma ilícita. Contudo, ao decorrer da
discussão alega que quem aprende a arte da retórica também aprende, com seu
mestre, a aplicá-la de forma justa, caindo assim em contradição. É evidente que
a tentativa de Górgias é camuflar o fato de que a retórica é utilizada não só
para promover a justiça, mas para, principalmente, promover, o que aos olhos de
Sócrates, é injusto.
Surge
então Polo, defendendo o seu mestre, afirmando que a retórica é a mais bela das
artes. Sócrates apresenta a sua Teoria da Adulação, acusando Polo de elogiar, mas
não contra argumentar.
Polo
inicia um discurso argumentando que a Retórica dá poder àqueles que a dominam,
uma vez que através do uso da retórica a pessoa está apta a fazer o que bem
desejar. Sócrates contrapõe com o argumento de que os que têm poder não são,
necessariamente, os mais poderosos, no sentido de que não fazem o que querem,
cita o exemplo de uma pessoa enferma que toma remédios, não os toma porque quer
e sim pelo que tem em vista conseguir através disto, que é se curar de sua
enfermidade. O debate volta-se para a questão do justo, quando Sócrates
apresenta uma analogia afirmando que da mesma forma que um doente que necessita
de auxílio médico para se curar é mais feliz que um doente que não recebe
auxílio médico, o homem que tentou adquirir poder através de meios ilícitos, mas
foi punido é mais feliz do que o homem que adquiriu pelos mesmos meios e goza
do poder. Portanto, para Sócrates, caso o poder tenha sido adquirido através de
meios injustos, é preferível ser punido a fugir ileso.
Cálicles
toma a palavra, acusando Sócrates de confundir as leis da natureza com as leis
da polis. Para Cálicles, o governante nasceu para pertencer à elite e,
portanto, é naturalmente mais poderoso que os outros. Sócrates refuta este
argumento afirmando que a maioria possui mais poder que um único indivíduo. Ao
decorrer do debate, Cálicles mostra-se claramente mais interessado em se
contrapor à Sócrates do que chegar a uma verdade através da discussão.
Sócrates
leva a discussão a outro ponto no qual é analisada a questão de qual tipo de
pessoa possui mais poder: A que tem autodomínio, na visão de Sócrates, ou a que
tem mais paixões e se satisfaz, segundo Cálicles.
Apesar
de Sócrates levar seus adversários à contradição através de analogias e uma
extraordinária capacidade de argumentação, as técnicas utilizadas por ele nem
sempre são tão nobres quanto a imagem que a nós é apresentada por Platão, do
sábio e humilde pensador ateniense, como, por exemplo, na analogia que faz
Sócrates quando estabelece uma relação do tirano com a pessoa enferma. Uma
doença acarreta males unicamente para o portador da mesma, o oposto do poder,
que resulta em males não para o portador, mas para quem é desprovido do mesmo,
sendo assim, não há motivos para o tirano desejar ser punido. Portanto, a
analogia não é válida, mas muito eficiente para ludibriar o oponente durante o
debate.