Pages

O papel da arte na atualidade


1. A arte ao longo dos tempos

Ao longo dos tempos a arte desempenhou um importante papel de manifestação do pensamento cultural predominante na época, além de ter sido usada como meio de fazer críticas ao sistema vigente, como ocorre no século XX. A cultura predominante em determinada época pode ser claramente compreendida através da arte do contexto. Podemos tomar como exemplo a arte medieval, que se caracteriza pelo uso de figuras de cunho religioso, expressando assim a forte influência que a igreja tinha sobre o pensamento ocidental neste período. Contudo, é importante destacarmos que há uma diferença entre a arte comercial – na qual eu englobo boa parte da arte medieval, uma vez em que a mesma era uma forma de anuncio e propagação de doutrinas – e a arte como forma de expressão individual.

2. A arte usada como meio de propagação de ideias

Se considerarmos que arte é uma forma de representação da realidade a partir de uma interpretação pessoal, pode-se dizer que arte comercial definitivamente foge dos parâmetros do que verdadeiramente é arte, enquanto a mesma preocupa-se com a propagação de uma ideia, crença ou doutrina que são compartilhados pela cultura de massa. No século XX e XXI temos a arte sendo utilizada amplamente para promover campanhas publicitárias, o que é o ápice do germe que vinha se desenvolvendo já na Idade Média, que é a arte comercial sendo usada para “vender” uma ideia, crença ou doutrina. Contudo, em decorrência ao avanço tecnológico proveniente das revoluções industriais, os meios de comunicação passaram a facilitar a propagação de ideias através da arte comercial. Se na Idade Média as pessoas precisavam reunir-se em um local para contemplar a arte como forma de expressão de uma doutrina, a partir do século XX elas passaram a poder fazer isso sem precisar sair de suas residências. As consequências disto não poderiam ser outras: Os ideais expressos pela arte comercial encontram-se profundamente impregnados na cultura de massa. Uma vez em que tal fenômeno promova uma uniformização da cultura global – e, portanto, a decadência da diversidade cultural e ideológica -, se considerarmos está forma de arte como uma arte genuína, a arte no século XX e XXI adquiriu um caráter desnecessário e maléfico.

3. Cultura uniformizada e da decadência da diversidade

A partir de uma análise histórica e cultural da civilização ocidental, pode-se afirmar que a uniformização ideológica e cultural de uma população tem como consequência a escassez de produção científica, filosófica e artística: Para termos esta certeza, basta observarmos o abismo que a Idade Média deixou no progresso do pensamento, fazendo um contraste com a civilização grega clássica, na qual havia uma grande diversidade ideológica entre a população e uma intensa e diversificada produção filosófica, científica e artística. Na Idade Média eram doutrinas religiosas que uniformizavam a cultura de massa. Com a rejeição das crenças judaico-cristãs provenientes da modernidade, houve uma retomada dos ideais gregos e, consequentemente, um período de intensa produção artística. A partir do surgimento do capitalismo passou a ser vendida uma nova crença, que era imediatamente aceita por toda a massa. A crença propagada pelo capitalismo através da arte comercial não é fixa, ela altera segundo as necessidades e interesses da elite econômica.

4. A arte comercial e o consumismo

Comumente em propagandas vemos atores bem vestidos, com um belo penteado e sorrindo divulgando um determinado produto. Sabemos que essa estratégia sugere à pessoa comum que se ela consumir determinado produto poderá ser tão feliz e realizada quanto o ator que o divulga parece estar na propaganda. Contudo, este é um sonho momentâneo e passageiro, pois quando o indivíduo adquire o produto ele é bombardeado com diversas outras propagandas que criam nele outras necessidades materiais, fazendo dele um consumista incessante. Quando o consumidor, por motivos econômicos, não consegue aderir o produto cujo a propaganda criou nele a necessidade, ele torna-se frustrado. Aí entra o papel da psiquiatria nos dias atuais: Emudecer os males que o corpo do consumidor apresenta frente aos problemas decorrentes do sistema capitalista.

5. Arte comercial e a arte genuína

Creio ter elucidado a diferença gritante entre as duas formas de arte, sendo uma essencialmente inútil e prejudicial e a outra benéfica para o progresso intelectual, artístico e cultural. Nos dias vigentes, os artistas genuínos ganham pouco ou nenhum espaço, a verdadeira arte permanece subterrânea, uma vez em que não serve aos interesses econômicos do sistema capitalista. Em consequência, temos a maioria das pessoas imersas em um oceano de superficialidade e ignorância. Vivemos em tempos em que é preciso ir às profundezas para encontrar joias preciosas. Pois, se quisermos ser superficiais, basta sentarmos na poltrona e ligarmos a televisão.

6. Internet como meio de propagação da arte genuína

Um fenômeno recente é a comunicação através da internet, que não se restringe às barreiras dos interesses econômicos do sistema vigente. Nela, artistas de todo o mundo podem divulgar o seu trabalho sem que estes estejam de acordos com as normas do capitalismo, muito pelo contrário: Os artistas que não ganham espaço nos outros meios de comunicação usam comumente a internet para divulgar arte fazendo críticas coerentes e contundentes ao sistema. A internet tornou-se o único meio democrático e igualitário de disseminação de informação, onde o mais reconhecido dos artistas possui as mesmas capacidades e meios de divulgação que o artista subterrâneo. É possível que estejamos vivendo um novo período de diversidade ideológica e produção artística e a internet está desempenhando um papel mais do que fundamental neste processo. A arte genuína já não precisa dos meios de comunicação em massa extremamente restringidos para ser reconhecida. Com o passar dos tempos, é possível que a arte genuína seja tão ou mais reconhecida do que a arte comercial.