A teoria
histórico-cultural parte do pressuposto de que o aprendizado é relativo às
condições em que o indivíduo é submetido. Diferente de outras correntes da
psicologia que ignoravam a consciência, a Escola de Vygotsky, considerando o
humano como animal, leva em conta o contexto social em que o indivíduo está
inserido, tal como as condições que tal contexto gera ao aprendizado de
determinada área do conhecimento. As crianças não vêm ao mundo com certas
aptidões, mas estas podem ser desenvolvidas, desta forma, a única
potencialidade com que vêm munidas desde o nascimento, é a de aprender novas
potencialidades. Assim, o ser humano é um ser histórico-cultural, moldado pela
cultura em que está inserido.
Diferente dos animais que
possuem habilidades instintivas e, portanto, incapazes de aperfeiçoamento ou
aprendizado de novas habilidades, o ser humano, por não ter as habilidades
dadas biologicamente, aprende com a cultura. As aptidões humanas são
construídas e mantidas culturalmente. Ao aprender a utilizar os objetos da
cultura, cada novo ser humano reproduz para si aquelas capacidades, habilidades
e aptidões que estão cristalizados naqueles objetos da cultura a que tem
acesso. As aptidões para o uso dos objetos culturais não estão contidas no
próprio objeto, é necessária, anteriormente, a aprendizagem da utilização de
tais objetos. Para que tal aprendizado ocorra, é necessária a presença de um
parceiro mais experiente em determinada aptidão. É esse processo que garante a
transmissão de desenvolvimento histórico da humanidade para as gerações
seguintes e possibilita a história.
A teoria
histórico-cultural envolve, claramente, questões educacionais, sendo, portanto,
relevante no campo pedagógico. Com a teoria histórico-cultural, sabe-se que no
processo de aprendizagem é necessário levar em consideração as condições de
vida. O educador exerce papel essencial no processo de desenvolvimento de
aptidões, pois, os elementos culturais só passam a fazer sentido quando nos é
esclarecido a sua utilidade. Segundo Vygotsky, antes de as funções psíquicas se
tornarem internas, é necessário que o indivíduo as vivencie nas relações
sociais. Uma vez em que elas não são uma potencialidade no ser humano, é
necessário que haja a experimentação para que o indivíduo faça a apropriação delas.
O papel do educador é identificar os elementos culturais cujos o indivíduo deve
se apropriar.
A compreensão das
qualidades humanas estabelecidas na relação traz uma nova compreensão da
relação entre aprendizado e desenvolvimento. Piaget, enquanto biólogo, concebia
o desenvolvimento humano como o dos demais animais, que trazem as aptidões
instintivamente, de modo que o desenvolvimento humano é traçado pelas predisposições
biológicas do mesmo. Com Vygotsky, há uma ruptura com esta maneira de pensar. O
desenvolvimento da inteligência é externamente motivado pela relação do
indivíduo com a cultura. Ou seja, na teoria histórico-cultural, sem o contato
do indivíduo com os elementos culturais, o desenvolvimento intelectual
simplesmente não ocorrerá, já que ele não é predisposto biologicamente.
Vygotsky percebe que as
formas tradicionais de avaliação levavam em consideração apenas aquilo que a
criança era capaz de fazer de forma independente, ou seja, sem a ajuda dos
outros. Vygotsky chamou esse nível de desenvolvimento de zona de
desenvolvimento real, uma vez que expressa o nível de desenvolvimento psíquico
já alcançado pela criança. Esse outro indicador foi chamado de nível ou zona de
desenvolvimento próximo e se manifesta por aquilo que a criança ainda não é
capaz de fazer sozinha. Há aprendizagem só ocorre quando o ensino incidir na
zona de desenvolvimento próximo. O papel da escola é, portanto, direcionar o
aprendizado para estágios do desenvolvimento ainda não alcançados pela criança.
O processo de
aprendizagem é um esforço colaborativo entre o educador e aquele que aprende,
não resultando, portanto, de um processo de criação, mas de um processo de
reprodução do uso que a sociedade faz dos objetos, das técnicas e mesmo das
relações sociais, dos costumes, dos hábitos e da língua.
A existência dos
diferentes períodos sensitivos da criança explica o fato do ensino influenciar
principalmente aquelas atividades que estão em processo de formação. A
manipulação de objetos por parte da criança gera necessidade comunicativa e,
também, gera o desenvolvimento da memória, da atenção e da própria linguagem
oral. A ampliação das qualidades humanas da criança é maior em cada etapa do
desenvolvimento, sendo levada a pensar e reorganizar o que pensa e a sua
compreensão das relações sociais. Leontiev ajudou Vygotsky a desenvolver suas
ideias, chama atividade não qualquer coisa que a pessoa faça, mas apenas àquilo
que faz sentido para ela. O sentido para a pessoa que realiza a tarefa é dado
pela relação entre o motivo e o objetivo – ou resultado – previsto para a
tarefa. Ou seja, ela realiza uma atividade, e ao realizar essa atividade está
se apropriando de aptidões, habilidades e capacidades envolvidas nessa tarefa.
A atividade envolve o conhecimento do objeto pela criança e esse objeto da
atividade deve responder a um motivo, uma necessidade ou a um interesse da
criança. Promovemos a aprendizagem e, consequentemente, desenvolvimento à
medida que respondemos ao desejo ou à necessidade da criança.
O fazer compartilhado
entre o educador e a criança é a garantia para que ela mantenha uma atitude
ativa em relação ao conhecimento e que conheça o novo. O educador, ao coordenar
esse processo para o desenvolvimento das qualidades humanas, compartilha com a
criança os passos do desenvolvimento didático, o objetivo das tarefas
propostas, a divisão das tarefas possíveis e provoca a iniciativa da criança no
processo de execução da tarefa. A participação da criança em nenhum momento
desqualifica o trabalho do educador, ao contrário, qualifica-o ainda mais.
Para Gramsci, a função da
escola é formar o indivíduo para ser dirigente, um cidadão preparado para ser o
presidente da república ou mesmo para escolher de forma autônoma os caminhos de
sua própria vida. Para isso, deve-se criar nas crianças o máximo daquelas
habilidades, capacidades e aptidões disponíveis no momento histórico em que
vivem. O surgimento, nas crianças, de novos motivos e necessidades acontece
quando a atividade torna-se significativa. Cabe ao educador, portanto,
encontrar as formas mais adequadas de trabalho com o seu grupo.
A criança que emerge dos
estudos da teoria histórico-cultural é uma criança capaz de interagir com o
adulto desde os primeiros anos de vida e desenvolver a necessidade de
comunicação, desenvolvendo as funções psíquicas e as aptidões. Tal concepção da
criança como um ser capaz muda radicalmente a compreensão a cerca da infância
na nossa sociedade. Conforte a teoria histórico-cultural, quando se respeita a
atividade principal das crianças, na presença das condições adequadas,
desenvolvem intensamente diferentes atividades práticas, intelectuais e
artísticas, diferente do que ocorre no ensino forçado.