1.
Apresentação
do autor
Santo
Tomás de Aquino, nascido por volta de 1221 na cidade de Roccasecca, na Itália, foi um dos maiores filósofos da
escolástica. Possuía vínculos familiares com reis e imperadores, era italiano
pelo lado do pai e normando pelo lado da mãe.
Ainda
menino fora enviado para estudar no Mosteiro de Monte Cassino. Dedicava longos
períodos ao recolhimento e à reflexão. Foi enviado, aos 10 anos, para dar
sequência aos seus estudos na Universidade de Nápoles, localizada em Nápoles,
na Itália. Seu primeiro biógrafo relata que "nas aulas o seu gênio começou a brilhar de tal forma, e a sua
inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as
lições dos mestres de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que
tinha ouvido".
Em Nápoles Tomás de Aquino tem
contato com a ordem dominicana e decidiu ingressar na ordem, o que sua família
desaprova. Para amenizar a influência da família e ao mesmo tempo possibilitar
com que continuasse seus estudos universitários, seus superiores o enviam para
Paris. É sequestrado durante a viagem por seus irmãos e permanece preso durante
um ano no castelo de Roccasecca.
Foi posta muita pressão para que ele desistisse de seus objetivos, contudo,
resistira a todas. Sendo finalmente solto, decidiu rumar à Paris em 1245. Lá, a
filosofia árabe-aristotélica causava polêmica por dentre os cristãos e
provocava forte reação por parte das autoridades da igreja, que adotavam
diversas medidas de censura e proibição. Contudo, Alberto Magno, de quem Aquino
era discípulo, não temia a nova filosofia e defendia sua incorporação às
doutrinas da igreja. Seguiram juntos para Colônia em 1248 e em 1252 Tomás de
Aquino retorna à Paris. Depois deste período, esteve pelas maiores
universidades europeias. Em sete de março de 1274, aos 53 anos, morre no
mosteiro cisterciense de Fossanova, quando viajava para participar de um
Concílio.
2.
Obras
-
Comentários: à lógica, à física, à metafísica, à ética de Aristóteles; à Sagrada
Escritura; a Dionísio pseudo-areopagita; aos quatro livros das sentenças de
Pedro Lombardo.
- Sumas: Suma Contra os Gentios, baseada
substancialmente em demonstrações racionais; Suma Teológica, começada em
1265, ficando inacabada devido à morte prematura do autor.
- Questões: Questões Disputadas (Da verdade, Da
alma, Do mal, etc.); Questões várias.
- Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas;
Da Eternidade do Mundo, etc.
3.
Ideias
principais
A
aproximação entre filosofia e teologia; A metafísica do ser: o ser é o ato que
realiza a essência; Distinção entre essência e existência; O ente como uno; Vias
da existência de Deus; Contribuição ao direito: hierarquia das leis.
4.
O Ente e
a Essência
O Ente e a Essência
(1248-1252) está entre as principais obras de Santo Tomás de Aquino, é onde estão
contidos os traços fundamentais de sua metafísica e onde ele busca, a partir da
análise da significação do “ente”, encontrar a significação da “essência”.
Partindo
do pensamento aristotélico, Tomás de Aquino afirma poder classificar o ente em
dois gêneros, sendo o primeiro algo que corresponde à determinada coisa na
realidade e o segundo não necessariamente, mas é “ente” desde que com ele se
possa formar uma proposição afirmativa. Desta forma, se utiliza do “ente” para
designar a ausência de determinada coisa, contudo, tal “ente” não representa
algo existente na realidade empírica. Somente a primeira definição de ente
significa à essência, já que a segunda é desprovida de qualquer relação com a
essência, uma vez em que só apresenta utilidade no caso de privações e,
portanto, é constituída de abstração. A essência de algo está contida na
“substância”, a relação da essência com os acidentes é parcial e relativa. As
substâncias podem ser simples ou compostas, sendo as simples as que mais fazem
relação com a essência e que dão origem às compostas. Contudo, a essência das
substâncias simples não nos é facilmente acessível, desta forma, Tomás de
Aquino traça uma estratégia para encontrar a solução do problema: Parte da
análise da essência das substâncias compostas, de modo a tornar a essência das
substâncias simples mais acessível.
Segundo
Tomás de Aquino, a essência é aquilo que é significado pela definição de determinada
coisa, assim, a matéria não diz nada sobre a essência das coisas, mas apenas
sobre o que está em ato. Faz-se necessário, portanto, a atribuição de um
sujeito que seja exterior à matéria e forma. Todavia, a essência não designa
matéria e forma, já que estas se caracterizam essencialmente por serem
acidentes e por terem, deste modo, uma relação parcial e relativa com a
essência. O ser da matéria não é apenas a forma ou apenas a matéria, mas ambos.
Se, pelo princípio de individuação, a essência for particular, e não universal,
então ela seria o que é significado pela definição. Portanto, deve-se saber que
o princípio de individuação é matéria considerada sob dimensões determinadas. A
designação do indivíduo em relação à espécie faz-se pela matéria delimitada
pelas dimensões, enquanto que a delimitação da espécie em relação ao gênero
faz-se pela diferença constitutiva que é tirada da forma de cada realidade.
Portanto, a forma determina a espécie e a constituição determina o gênero. Tudo
o que está contido na espécie faz obrigatoriamente parte do gênero, pois, se
não fizesse, o gênero não seria de determinada espécie, mas sim de outra. A
humanidade está no Sócrates, o todo “humanidade” está no gênero “Sócrates”, não
podendo estar somente parte dela. O corpo, por sua vez, se apresenta como um
gênero do animal, no sentido de que nada se pode conceber em “animal” que não
esteja contido em “corpo”. Os acidentes serão os responsáveis por fazer a
diferenciação dos seres de uma mesma espécie e serão relativos à substância, ou
seja, o que irá definir a maneira como se manifestarão os acidentes é a
substância. A substância só poderá definir os acidentes através da forma, pois
na forma há acidentes que não fazem relação com a matéria e nenhum acidente
acontece a partir da matéria sem fazer relação com a forma. Então, mesmo os
acidentes contidos na matéria se comunicam com a substância. Ainda que a forma
não represente a essência em totalidade, ela é parte de uma essência completa e
os acidentes só podem ser uma essência de maneira relativa. Através da
significação não se encontra a essência: É necessária uma complementação que a
delimitará. Se o homem é, terá de ser
alguma coisa. Aqui se faz a delimitação de sua essência.
5.
Conclusão
São Tomás,
enquanto fiel à filosofia de Aristóteles, diferencia entre a essência e a essência individuada.
No primeiro caso, a essência é a sua noção própria, no segundo caso ela é o
ser que possui neste ou naquele indivíduo. O conceito de espécie não lhe compete segundo
a sua absoluta consideração, mas
surge a partir dos acidentes que o acompanham segundo a sua substância.
A essência, enquanto encontrada nas substâncias separadas, ou imateriais, não
fazem relação com a matéria (ou seja, é resistente à matéria, o seu conceito
não deve necessitar de matéria, mesmo que seja uma forma impressa na matéria). A
matéria necessita obrigatoriamente de uma forma para existir, mas a forma pode
existir sem a matéria. Algumas formas, contudo, necessitam de matéria. E as
formas que não necessitam de matéria existem por si só, e estão, em relação às
outras, mais próximas da causa primeira. É preciso que nestes casos a forma das
substâncias sejam iguais às suas essências. Portanto, enquanto as substâncias
simples possuem apenas forma, as substâncias compostas possuem matéria e forma.